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Uma doce narrativa ofertada a mim

Aprendi com a doce e paciente voz da minha mãe - ao ler ao pé do meu ouvido, enquanto eu me enfronhava no quase adormecer e na atenção dada ao som da narrativa - que os contos, as poesias, as estórias são importantes para a imaginação. Sim! E como eram! Hoje, acredito que seja por isso que eu não gostava de contos de princesas ou qualquer narrativa que começavam com: Era uma vez, mesmo sendo uma criança, sem maturidade para consolidar um juízo de valor ou de gosto, eu acreditava que a estória era óbvia, que já teria um início, meio e fim, mesmo com esse: e assim foram felizes para sempre. Eu não me contentava, não me satisfazia, queria ir além daquelas linhas, queria ir além da voz da minha mãe, mesmo que seu olhar me acalentasse dizendo: "a estória acaba aqui e eles foram felizes, isso é o que importa".

Cresci, refutei, sonhei, imaginei...
E a expectativa sobre o óbvio? Sobre o destino de ser feliz? Isso continuava a me perturbar, eu me sentia como uma navalha que deveria seguir um recorte esperado, mas que quando sai do destino cortava, feria, desvelava hemorragicamente um acaso que caçoava dos planos. Por que o destino de ser feliz para sempre me perturbava tanto? Enquanto adolescente não sabia responder, aliás, para uma pessimista nata, eu não seria feliz e ninguém me consolaria tão bem quanto a voz de minha mãe.

Acreditava que para ser feliz para sempre deveria haver bastante amor, reciprocidade, correspondência, assim como a flor espera o beija-flor, isso era o amor! Que só tinha da minha família... Na minha difícil adolescência não acreditava na infinitude do amor doado pelo outro. Mas, certo dia, tudo começou a cair por terra, eu li Enleio, e pensei baixinho comigo mesma, tinha medo que meus pensamentos fossem ouvidos, pois, se todos ouvissem, iriam ver que aquela pessimista nata e cética do amor, sentiu a angústia de Drummond em ver que o amor existia entre duas pessoas sem ligação familiar, que o amor poderia ser vivido, se não fosse o medo, o pesar das horas, do tempo, do acaso... Do medo de não saber o que era o amor, de não saber se comunicar com aquele, esse sentimento tão infindável, intenso e com tantos meandros inexplicáveis...

O enleio teve hora e data marcada para mim, a adolescência, mas hoje prefiro dizer que o enleio, que vem da ação de ligar-se, de enlaçar-se, mas que nesse nó, nesse cadarço apertado ou mais solto existe um embaraço para lidar com o destino, com o acaso... Hoje, afirmo, na minha fase adulta e na próxima fase, a velhice – espero chegar lá bem e quando digo bem, falo da ideia de que o embaraço em lidar com laço seja diluído pela constante certeza que só o amor é capaz de causar a plenitude dos planos a dois – que o enleio pra mim é o dia 25.

Hoje tenho 23 anos, continuamente estudo o código do amor e cada vez mais sei que não devo ter medo de balbuciar eu te amo no final da ligação, que o amor não se satisfaz com poucos minutos, o amor não aceita formalidades, ele é intenso demais para lidar para se culpar com o que deveria ter feito, ele é ardente e pulveriza a disparidade de idades. Quando se ama não se demora... Por isso, se eu pudesse, teria te amado antes, teria gasto minhas madrugadas com sms, teria sentido o cheiro do teu hidrante bem antes, teria perguntado a cor do teu batom para saber o gosto do teu beijo, teria me diluído em minutos pulsados em teu seio, porque hoje sei que um dos códigos do amor é AMAR...
ENLEAR-SE...
P.S: Hoje, acredito que os felizes para sempre pode se real.

Bianca Cruz

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